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sexta-feira, 1 de março de 2013

Passatempo quando acabar a luz em casa

Outro dia choveu muito e acabou a luz aqui em casa (na verdade, em boa parte de Ribeirão Preto) lá pelas 18h e só voltou às 22h. 

Durante este período, ficamos à luz de velas e lanternas. Nem fui para a faculdade, pois como ela fica perto de casa, também estava sem energia. 

Meu pai até que não deu trabalho - apenas no final da noite começou a sentir medo e ficou nervoso.

Como não havia muito o que fazer, ficamos conversando ou tentando ler alguma coisa, na sala.

Minha tia começou a falar no telefone e, como de costume, conversou em alto e bom som - equivocadamente, como se todo mundo estivesse interessado no que ela fala.

Meu pai, que muitas vezes fica incomodado com o barulho que ela faz, desta vez deu muita risada dos comentários que ouvia:

- É, é. Uma hora a gente ganha, outra hora perde. - a tia começou.
- Sabedoria popular! - meu pai disse, rindo. - Não tem o que fazer, né, Mônica, vamos ficar ouvindo ela falar hahahaha!

Em outro momento, a tia falou:

- Caramba!
- Fala logo CACETE! Hihihi é melhor falar cacete! Cacete é melhor! - ria o meu pai.

O papo continuou e os risos também:

- Isso.. barco.. bla bla bla... peixe.
- Nem barco, nem peixe! Não chegou a tanto! - meu pai referiu-se à chuva que caía.

- É, a Mônica, a Seiko, o Rubens bla bla bla...
- Tão usando nosso santo nome, hein! E acho que é em vão! - meu pai falou, levantando o dedo indicador.

Ainda me recompondo das gargalhadas que dei, minha tia disse:

- Ligou no celular da TIM da fulana... 
- No TIM, não! TIMTIM é muito feio! - e rimos até não aguentar mais. "timtim" refere-se ao órgão sexual masculino em japonês, de uma forma do tipo "pipi" em português.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Vida de cuidador: um pouco de distração vai bem



Uma das minhas maiores distrações durante o dia tem sido ler. Me faz um bem danado ler!

Agora estou lendo um livro bem emocionante. Nessas horas me sinto dentro das histórias e "fujo" da realidade. O bom é que a aventura é enorme, então tem bastante coisa para "viver" ainda. Estou no quarto, de cinco volumes. Meu namorado e eu estamos empolgados com essa história. Minha irmã também.

Comecei vendo o seriado, indicado pelo meu namorado e irmã. É uma boa "fuga" também. Enquanto meu pai assistia tv, ficava ao seu lado vendo o seriado no notebook, com fones. Não deixei meu pai assistir, porque achei que ele sentiria medo.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Pai, você pode estar meio mal, mas não é mau!

- É perigoso. 
- O que, pai?
- É muito perigoso.
- O que é tão perigoso assim, pai? Estamos bem seguros aqui em casa, tá tudo trancado, tem aquele segurança inútil que fica passando de moto... tá tudo certo!
- NÃO! EU sou perigoso. - e deu um sorriso meio esquisito.
- Você, pai? Perigoso? Não, não é não... 
- Sou. Eu sou MAU - e sorriu, novamente.
- Pai, você não é mau, você é bom! Suas atitudes provam o quanto você é do bem! - respondi, um pouco preocupada.
- Sou MAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAU!
- Pai... não é não... - já estava sem saber o que dizer.
- É melhor você se afastar de mim. Vou te fazer muito mal.
- Pai, você quer ficar um pouco sozinho? Eu sei que nunca faria mal a ninguém.
- Você é que pensa.
- Então vou te deixar um pouco sozinho, tá? Vou para o meu quarto. Ok?
- Melhor. E fecha bem a porta.

Depois de um tempo, voltei para a sala e estava tudo bem. Acho que às vezes ele deve ficar meio cansado de ter alguém seguindo-o para cima e para baixo, né?

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Noites em claro

Nas últimas semanas tem sido complicado dormir a noite.


Já tinha ouvido falar que ao entardecer muitos pacientes com Alzheimer e doenças do tipo ficam agitados. 

Meu pai começa a ficar com aquele medo e recusa-se a sair da cama. Fica ofegante e triste, só sussurrando e pedindo para não deixá-lo sozinho.

Fica assim também na hora de dormir a noite. Tenho ficado ao seu lado até ver que ele já dormiu. Dá um aperto no coração de ve-lo com tanto medo de ficar sozinho. Ele pega na minha mão, faz uma "carinha" e pede para eu não abandona-lo. E eu, claro, prometo que sempre estarei ao lado dele. 

Minha mãe também acaba acordando de madrugada quando ele levanta.

Às 3h40 de ontem, de madrugada, eu estava sentada no chão, perto da cama e meu pai estava deitado de lado, com as costas voltadas para mim. Achei que ele já estava quase dormindo, quando virou de repente, com o olhar lúcido e a voz firme e disse:

- Ué! O que que você tá fazendo aí?
nada, nada, já tô indo - respondi, meio surpresa.
- Pode ficar aí, se quiser!
- Não, pai, tô morrendo de sono e vou dormir! Boa noite!
- Boa noite!

E dormiu.

Lucidez, Abstinência, Tremor e Temor


- Medo.
- Medo de que, paizinho?
- Não sei... Mas eu sinto muito medo. Eu já tentei. Já tentei de tudo. Não adianta. Não adianta...
- O que não adianta, paps?
- Nada adianta. Eu já tentei. Tenho muito medo e não sei por quê.
- Não precisa ter medo, paizinho querido... eu tô aqui... tá tudo bem...

Meu pai e eu tivemos esse diálogo praticamente todos os dias nas últimas semanas.

Parece que são momentos nos quais ele tem uma certa noção do que está se passando, de que está doente. Às vezes ele diz "eu tô quase bom!" e sorri. Em outras, ele chora e lamenta "eu não aguento mais". Eu, que já sou chorona por natureza, choro junto, todas as vezes.

Nunca tinha visto meu pai chorar na vida. Agora essa cena tem sido cada vez mais frequente, o que me deixa muito agoniada. Ainda não me acostumei. Será que é possível se acostumar com o sofrimento dele? Do jeito que eu sou, acho pouco provável.

Já faz 2 semanas que meu pai não toma nenhum remédio. Os efeitos que surgiram foram tanto positivos quanto negativos:

Um dos efeitos positivos: ele voltou a se alimentar direito. Começou aos poucos, apenas aceitando frutas (manga, melão, melancia e uva sem semente). Está mastigando e engolindo bem, sem a dificuldade que apresentava em janeiro. 

Naqueles dias em que meu pai não tinha apetite, quando se recusava a comer ou a beber qualquer coisa, eu ficava extremamente agoniada, com uma vontade imensa de rasgar (bem rasgadinho) o meu diploma de nutricionista. Era uma sensação de impotência que me deixava numa angústia sem fim. 

Um dos efeitos negativos: há uma semana, meu pai iniciou um tremor nas mãos durante a noite. Mal conseguia segurar o garfo. Ele ficou nervoso e ansioso, por não conseguir controlar suas mãos. Chegamos a pensar em leva-lo ao hospital, mas já se passava da meia-noite e estávamos tão cansadas que preferimos esperar o dia seguinte para ligar para o médico que, por sinal, está de férias e ainda não retornou nossa ligação. 

Outros pontos positivos: voltou a acordar cedo e a ter (breves) momentos de lucidez, com iniciativa para realizar atividades sozinho. Por alguns instantes - de vez em quando minutos à (poucas) horas - ele fala normalmente e anda como antigamente, sem "travar" e sentir aquele medo de cair, ou sussurrar. Vai até a cozinha sozinho, abre a geladeira (incrível) e serve-se de suco, refrigerante ou água, com bolachas ou pão com polenguinho. Abre seu armário, pega uma blusa e veste-se sozinho. Coloca a fralda sem ajuda. Escova os dentes direito. E diz "Mônica, eu não aguento mais ficar sem fazer nada". Ah! E parou de babar.

Não estou encorajando ninguém a parar de tomar seus remédios, pois são receitados por médicos devido a muitos estudos, que comprovam seus efeitos desejados. Mas até que ponto os medicamentos ajudam ou atrapalham com seus efeitos colaterais? 

Meu pai parece bem melhor sem os remédios, está menos "dopado". Só que está sofrendo com sua consciência, também. Então fica difícil saber o que fazer, principalmente porque não estamos conseguindo falar com o neurologista! O nefrologista já proibiu de voltar a tomar tudo antes de refazer todos os exames e verificar se os rins melhoraram. 

Dr. Vitor Tumas, volte de suas férias logo

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Uma tarde no hospital (parte II)


Hoje voltamos ao hospital. Antes de contar como foi, preciso dizer qual foi o desfecho da última "novela".

No sábado, ficamos lá das 15h até quase meia-noite. O neurologista chegou depois das 21h, e não às 19h como estava previsto.

Ele nos garantiu que meu pai não teve um AVC e que os exames neurológicos estavam normais para o padrão da doença. No entanto, o exame de sangue apontou para um novo problema: os rins não estão funcionando como deveriam estar. Além disso, indicou a introdução de sonda nasoenteral, para alimenta-lo, já que estava sem apetite há uma semana.

Duas enfermeiras entraram no quarto com a sonda, mas meu pai falou com a voz firme, quase gritando, que não usaria nada e que estava comendo, sim. A enfermeira, então, me falou que não iria adiantar tentar introduzir a sonda, pois pacientes com esse perfil arrancariam na primeira oportunidade. 

Fiquei um pouco decepcionada, pois eu estava com a esperança de que a sonda seria a "salvação da lavoura". 

Deram um suco para o meu pai e alta, com o trato de comer bem. Caso contrário, a enfermeira viria até nossa casa para colocar a sonda. Na hora de se despedir, meu pai falou um sonoro "tchau mesmo!".

Voltando à tarde de hoje no hospital. Desta vez, fomos para meu pai ser atendido por um nefrologista


Os novos medicamentos que meu pai começou a tomar no final do ano passado sobrecarregaram os rins, desenvolvendo insuficiência renal aguda. 

A vida é irônica. Por um lado, você melhora a depressão e o desânimo, mas por outro, você ferra com os rins. 

O nefro, então, suspendeu TODOS os remédios e indicou outros, para o estômago e aumento de apetite. É mais urgente estimular a alimentação, agora. 

Semana que vem encontraremos o nefrologista novamente, que pediu para marcarmos uma consulta.

Ah! Meu pai tremeu muito quando a enfermeira foi colocar a agulha do soro. Tadinho, ele estava com tanto medo! Segurei a mão dele e disse q estava tudo bem, logo iríamos para casa. 

Ele começou a sentir frio e cobrimos com  lençol. Depois de dormir um pouco, acordou reclamando de frio. Fui falar com uma enfermeira, que se lembrou de mim, e nos transferiu para um quarto, mais confortável.


Desta vez, me preparei melhor para o chá de cadeira: levei um livro, ipod, balas e uma bolachinha. 

Ainda bem que voltamos para a casa mais cedo desta vez. São quase 18h, meu pai está com uma carinha melhor e já tomou um monte de suco. 

domingo, 20 de janeiro de 2013

Uma tarde no hospital

Ir ao hospital nunca foi um passeio agradavel para ninguem. Depois de uma semana alimentando-se muito mal, hj resolvi trazer meu pai, com a esperanca de sair do hospital com ele alimentado, nem que seja por sonda nasoenteral. Estamos a espera de um neurologista de outra cidade, pois a medica do pronto-socorro desconfia que meu pai tenha sofrido um AVC (acidente cerebral vascular). Ele tem babado um pouco e a medica notou que ele esta com a boca torta. Alem disso, ele tem dado umas "travadas" e parece ficar ausente por um tempo. Minha mae veio junto, mas voltou para casa. Ela esta bem cansada. Meu pai ficou com medo de tirar sangue, mas depois falou todo orgulhoso que "nem doeu!". Agora estamos num quarto, ele em uma cama e um senhorzinho na outra. Agora pouco o filho dele levou-o para o banheiro. Os dois sairam sem lavar as maos e dar a descarga! Lembro-me que da ultima vez que vim aqui, outro sr foi ao banheiro e fez a mesma coisa. Sera que eles nao tem consciencia do potencial de se pegar alguma doenca oportunista em um hospital, local cheio de microorganismos resistentes? Obs: Nao sei usar acentos nesse teclado do celular.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Filmes x Desenhos


Meu pai sempre foi fã de cinema, filmes, museus, etc. Podia ficar o final de semana toda assistindo a filmes de qualquer gênero: comédia, aventura, romance, drama, ficção e ação.

Lembro-me que assistimos a triologia do Senhor dos Anéis no cinema, todas as vezes juntos e com bastante pipoca e refrigerante, do jeito que ele gosta. Parece-me que foi em outra vida, há muitos e muitos anos.

Até hoje aprecia um bom filme. Um dos únicos lugares que ainda vamos juntos, é à vídeo locadora, em busca de DVDs interessantes. Ah, mas nada de filmes de terror, com monstros ou bruxas. Agora ele sente medo.

Faz parte de sua rotina assistir alguns seriados na TV, assim como filmes. Mas, a partir de um certo momento, que não me lembro direito qual foi, ele passou a assistir canais infantis de desenhos

Na primeira vez que o vi assistindo desenho, achei curioso. Ele estava vendo o Pocoyo e eu entendia "bocoió" e não conseguia parar de rir. Sabe quando dá aquele ataque, que não dá para parar de gargalhar

Teve uma vez que estávamos jantando, com a TV ligada (antigamente, isso era inadmissível), e ele não respondia minha mãe. Ficamos um pouco preocupadas, mas de repente ele começou a dar risada. E falou que o desenho estava engraçado.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Doença: Dificuldades na alimentação


Ontem ajudei meu pai a se alimentar. Pela primeira vez.

Quando fui chama-lo para jantar, ele estava na poltrona assistindo televisão. Como cochilou, sujou as roupas. Antes de irmos jantar, minha mãe trocou-o. 

Depois, ele se recusou a ir para a sala. Dizia que estava com medo e que era perigoso. "PE-RI-GO-SO!" Ele repetia.

Tive a idéia de levar uma mesinha para o quarto, para ele poder comer na cama. Levei meu prato também, e jantei na escrivaninha. 

Mas enquanto comia, ele quase não se movia. Então, tentei ajuda-lo. Primeiro, perguntei se ele queria minha ajuda. Ele aceitou. Segurei a colher com a sopa e dei em sua boca. Foi aí que ele ficou indignado e falou:

- Sou mesmo um palhaço!
- Não é, não, pai! -  respondi.
- Sou, sim! Engano vocês todas! Engano. Engano. Eu minto o tempo todo.
- Paizinho, você não mente não. Deixa eu te ajudar a comer, tá bom?

Ele aceitou, mas com um olhar relutante. Pela primeira vez, em uma semana, ele comeu quase um prato de comida. Está difícil faze-lo se alimentar. Não adianta preparar alimentos preferidos ou mais macios. Ele não tem apetite.

Hoje, na hora do almoço, foi uma luta. Na verdade, estou há 3 horas tentando convence-lo a comer. Mas desta vez, não está aceitando a minha ajuda. Até soltou um "cacete" bem sonoro, em uma das vezes que tentei dar comida na boca. Estou quase desistindo e não sei o que fazer. Preciso de ajuda...


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Cotidiano: pesadelo x realidade

Ontem assisti com meu pai um seriado chamado Grimm, cujo personagem principal vê monstros e extermina-os. 

Hoje de manhã, após o banho (falando em banho, outra hora conto como foi), tomando seu café, meu pai falou:


- Estou preocupado.

- Com o que, pai? - indaguei.
- Eu não sei direito se foi sonho ou se aconteceu de verdade.
- Me conta, pai! Eu te ajudo a ver se foi sonho ou realidade!
- Não adianta tentar fugir.
- De quê? 
- Dos monstros.
- Que monstros?
- ......
- Ahhhhh, pai! Foi pesadelo! Monstros não existem! Se existissem, a gente tava "frito"! Pode ficar tranquilo, foi só um sonho ruim! Deve ter sido por causa do seriado que a gente viu ontem, tinha um monte de monstros... 
- Tem certeza?
- Tenho. Hoje vamos assistir filmes com belas paisagens e mulheres bonitas! 
- Será que funciona?
- Vamos tentar!

Essa foi nossa conversa. Amanhã conto se deu certo.